skip to main |
skip to sidebar
Publicado no Expresso a 28/2/2009.
A resposta mais comum à crise bancária tem sido a nacionalização dos bancos. Embora não seja uma má ideia, tem dois defeitos que me preocupam. Em primeiro lugar, receio que a reprivatização venha muito tarde. Embora todas as pessoas de bom senso defendam a nacionalização como um remédio temporário, existe o risco de ela gerar um banco acomodado e ineficiente, mas politicamente poderoso, com interesse em atrasar ao máximo a reentrada dos ventos da concorrência.
Em segundo lugar, embora a nacionalização castigue os accionistas, que perdem o investimento, os gestores, que perdem o emprego, e os trabalhadores, com a contenção inevitável, os credores ficam a ganhar. Eles cobraram ao banco uma taxa de juro alta para os compensar do risco. Mas passam a não ter risco, porque o empréstimo é agora garantido pelo Estado. Em muitos bancos, os credores investiram vinte vezes mais dinheiro do que os accionistas, sendo igualmente culpados pelos problemas actuais. Recompensá-los com a nacionalização é injusto e um perigoso sinal para o futuro.
Existem duas alternativas a considerar. A primeira, é a reestruturação do banco de acordo com os princípios que se seguem em falências. Os accionistas actuais perdem tudo (os bancos já estão falidos de qualquer forma) e os credores vêem os seus empréstimos convertidos em novas acções. Passam assim a suportar o risco, e têm todo o incentivo em melhorar a gestão do banco. O Estado não entra com um tostão, cabendo-lhe apressar legalmente a reestruturação.
A segunda, é partir um banco falido em dois. Com os activos que tenham bom valor, cria-se um novo banco, o N(ovo)BPP e o NBPN, vendendo acções no mercado a novos investidores privados, talvez com algum apoio estatal no início. Sem o fardo dos activos tóxicos, o novo banco deverá funcionar bem. Os maus activos ficam no banco velho, ao cargo dos seus accionistas e credores, mas retira-se a sua licença bancária, ficando reduzido a gerir e tentar vender estes activos de forma a recuperar algum do investimento.
Para evitar quebrar-me em dois, esta é a minha última coluna neste espaço no Expresso. Obrigado, pela atenção.
Publicado no Expresso a 14/2/2009.
O euro fez dez anos a 1 de Janeiro. Esta primeira década foi um sucesso macroeconómico. O euro é a moeda de referência no sistema financeiro, só comparável com o dólar no valor das transacções e reservas. A inflação tem sido estável e previsível, e a credibilidade do BCE vê-se nas baixas taxas de juro de longo prazo. Estas permitem que países como Portugal paguem menos pelas suas dívidas do que no passado, e o risco da bancarrota internacional na dívida pública do país seja menor.
Por trás deste sucesso escondem-se alguns detalhes menos confortáveis. Nos anos 90, os defensores do euro argumentavam que o comércio intra-europeu iria disparar com a moeda única. Algumas estimativas falavam no dobro ou mesmo no triplo das transacções, por ser mais simples comparar preços na mesma moeda. Olhando para trás, o comércio aumentou na zona euro, na melhor das hipóteses, uns 10 ou 15%. Os portugueses podem saber hoje com mais certeza quanto custa o pão em Berlim, mas isso não os levou a deixar de comprar papos-secos e a começar a importar pão alemão.
A outra grande vantagem do euro seria o aprofundamento da ligação política entre as nações da União Europeia. Não sendo as relações internacionais a minha especialidade, pedi a opinião a alguns académicos.
A resposta foi unânime: os últimos 10 anos ficaram muito atrás dos anos 90 em termos de integração europeia. Os falhanços de sucessivos referendos, a ausência de uma política externa coerente, e as situações ridículas em que se colocam os deputados do Parlamento europeu, foram algumas das razões avançadas.
Por fim, o sucesso macroeconómico só agora vai ser posto à prova. Nos últimos 10 anos, a política monetária conservadora do BCE não fez grande diferença no crescimento económico de uma Europa com problemas estruturais. Mas agora que entramos em recessão, continuará o BCE obcecado com a inflação mantendo as taxas de juro bem acima dos EUA? E, com a produção industrial a descer só 3,9% na Alemanha, mas uns alarmantes 11% em Espanha, irá o BCE escolher a política monetária certa para o seu maior país ou aquela que mais interessa para a maioria dos europeus?
Publicado no Expresso a 31/1/2009.
O Ocidente prepara-se para iniciar uma das maiores expansões fiscais de sempre em tempo de paz. Os EUA planeiam o seu maior défice no pós-guerra, a conservadora Alemanha abre os cordões à bolsa todos os dias, e até Portugal está disposto a trilhar este caminho apesar do recente esforço na redução do défice. Uma questão em aberto é se esta expansão deve ser feita aumentando a despesa pública ou reduzindo os impostos. Neste ponto, os economistas dividem-se em dois campos.
Os keynesianos preferem a despesa pública. Para eles, numa crise como esta falta a procura de bens. Quando o governo gasta €1 milhão, cria uma procura por bens neste valor. Por sua vez, o aumento da procura aumenta a produção e a riqueza, que levam as pessoas a consumirem mais, aumentando a procura, num efeito multiplicador da expansão inicial. Uma redução dos impostos em €1 milhão, em contrapartida, é em parte poupada pelas pessoas, pelo que o aumento inicial da procura é sempre inferior a um milhão. Por isso, é menos eficaz do que o aumento na despesa pública.
Os neoclássicos acham antes que o problema está na oferta. Para eles, se o governo gasta €1 milhão a construir um museu novo, isso retira recursos já de si escassos às famílias. As pessoas respondem construindo menos edifícios privados, e o produto final não se altera muito. Em contrapartida, baixando os impostos sobre o rendimento, cada hora a mais a trabalhar ou cada euro a mais investido rendem mais. A baixa de impostos estimula maior produção na economia.
Tendo em conta esta incerteza teórica, os economistas viram-se para os dados. Há alguns anos, Blanchard e Perotti estimaram que €1 a mais de despesa ou €1 a menos de impostos resultam ambos em €1 a mais no PIB. Melhores dados e técnicas recentemente levaram Valerie Ramey a medir que €1 de despesa aumenta o PIB em €1,4, enquanto Christina Romer (a economista-chefe da administração Obama) estima que €1 a menos de impostos eleva o PIB entre €2 a €4.
O plano de $1 bilião de Obama toma o meio-campo: metade vai para o aumento da despesa, metade para baixar os impostos. Vamos ver como será o plano português.
Publicado no Expresso a 17/1/2009.
Não têm faltado más notícias para Portugal nos últimos tempos: recessão para 2009, desemprego a subir, empresas históricas a fechar. Mas, as notícias mais assustadoras têm vindo dos remotos spreads e ratings, que só agora capturaram a atenção da imprensa.
Nos últimos 10 anos, Portugal transformou-se num país altamente endividado ao exterior. A dívida é cerca de 90% do PIB, e todos os anos acrescentamos 8 a 9%. Se, de repente, os estrangeiros deixassem de nos emprestar este dinheiro, Portugal teria uma crise económica como nunca teve no último século. Fábricas fechadas porque não conseguem importar os materiais necessários, desemprego a saltar para os 20%, revoltas sociais, um ditador populista ao poder. Este cenário parece inconcebível, mas ocorreu na Argentina há poucos anos, quando os números da sua economia tinham semelhanças com a nossa situação.
Porque é que os estrangeiros fariam isso? Quem empresta ao Estado enfrenta dois riscos: a inflação, que implica que o dinheiro que recebo do Estado mais tarde em pagamento vale menos em bens reais; e a falência do Estado que pode não pagar. Desde que entrámos no euro, o primeiro risco desapareceu, e o segundo devia ser mínimo, pois desde o século XIX que o Estado português honra as suas dívidas. Por isso mesmo, desde 1999, a diferença entre a taxa de juro que os portugueses e os alemães pagam nas suas dívidas tem sido quase zero.
Nos últimos meses, aconteceu uma coisa quase impensável: esta diferença, ou spread, trepou para os 1,1%! Este número diz que os mercados internacionais acham que é bem provável que Portugal deixe o euro ou declare falência nos próximos 10 anos. Os dois riscos não são independentes, pois se Portugal não pagar as dívidas, pode ser expulso do euro; basta lembrar que um dos maiores detentores da dívida portuguesa é o próprio BCE. Esta semana, mais uma má notícia, quando a S&P reviu para cima a sua avaliação, ou rating, do risco da dívida portuguesa.
A probabilidade desta catástrofe ainda é pequena. Mas, para quem acompanhou o que aconteceu na Argentina, só o facto de ela estar na mesa é suficiente para fazer perder o sono.
Publicado no Expresso a 3/1/2009.
Qual dos dois é o maior determinante das nossas características, da personalidade, saúde, ou sucesso? Alguns, por ventura mais ligados às ciências naturais, apostam nos genes, apontando para as fortes correlações entre determinadas sequências genéticas e muitos dos nossos traços de personalidade. Outros, mais ligados às ciências sociais, realçam o estudo de gémeos separados à nascença que, apesar de geneticamente quase idênticos, são muito diferentes em adultos como resultado de diferentes famílias, educações e experiências de vida.
Recentemente, o economista Douglas Almond fez uma contribuição intrigante para este debate. Ele concentrou-se na saúde dos fetos na barriga das suas mães, e sobretudo na sua exposição a factores ambientais. Num primeiro estudo, Almond observa fetos entre 1917 e 1918 dentro da barriga de mães semelhantes numa série de características que podemos medir, com residência em diferentes áreas dos EUA. Nestes dois anos, diferentes regiões foram afectadas em diferentes alturas pela epidemia da gripe, que matou mais de meio milhão de americanos. Usando esta variação, combinada com dados do censo pós-1940 para os então adultos que foram fetos em 1917-18, Almond pôde ver se as pessoas cujas mães foram expostas à gripe têm menos saúde, educação ou dinheiro.
Num segundo estudo, Almond usa dados suecos aquando do desastre de Chernobyl. A nuvem radioactiva que resultou do desastre viajou da Rússia para a Suécia afectando diferentes regiões em diferentes alturas. Num terceiro estudo, Almond usa o jejum durante o Ramadão para comparar a saúde e estado socioeconómico dos muçulmanos concebidos nesse mês com os outros.
O resultado dos três estudos é forte: a exposição a factores ambientais durante a gestação tem efeitos bastante pronunciados na nossa saúde e rendimentos em adultos. Estes resultados baralham o habitual debate entre genes e socialização: os genes que herdamos são determinados na concepção e a socialização começa depois do nascimento. Ou, talvez parte dos nossos determinantes biológicos vão para lá da nossa herança genética, e talvez a nossa socialização comece ainda no ventre.