terça-feira, agosto 22, 2006

Tentações

Publicado no Diário Económico a 22/8/2006.

Provavelmente, está a ler esta coluna na praia. O meu primeiro pensamento quando cheguei à areia este ano foi: “Caramba! Estou gordo.” Apesar desta recordação dolorosa, ainda não fiz nada para evitar que aconteça o mesmo no próximo ano. Aliás, aqui há uns meses, cheguei a ir a um ginásio, inscrevi-me, e paguei a jóia. Saí orgulhoso pela porta fora, imaginei-me um homem novo, e nunca mais lá voltei a entrar.

Uma consolação é que não sou o único. O negócio dos ginásios desafia a racionalidade. Um estudo recente em Boston descobriu que, entre pagar $10 por visita, ou pagar uma mensalidade de $70, a maior parte das pessoas preferia a última opção. No entanto, estas mesmas pessoas vão ao ginásio em média apenas 4,3 vezes por mês. Logo, com a sua escolha, perdem $27 por mês. Para além disso, após a última visita, as pessoas demoram em média 2,3 meses até finalmente cancelarem a subscrição do ginásio.

Mais grave ainda é o comportamento de muitos em relação à poupança e ao consumo. No último Expresso, revelava-se que já existem bancos que concedem empréstimos pessoais a 29.6% por ano. Repito: 29,6 por cento! Em 1998, o americano médio devia no seu cartão de crédito cerca de $5000. A taxa média de juro era 16% e a família média pagou cerca de $1000 só em juros. Tendo em conta que muitos destes portugueses e americanos também investem na bolsa, no banco, ou em casas com rendimentos raramente acima dos 6 ou 7%, este comportamento é chocante.

Um dos trabalhos mais excitantes em microeconomia nos últimos 10 anos visa entender estas atitudes. Estas novas teorias explicam porque é que, embora as pessoas compreendam que seria melhor poupar ou ir ao ginásio, não conseguem evitar as tentações de comprar mais um par de sapatos ou comer outro gelado.

Um exemplo desta linha de investigação fala da “saliência do presente”. Imagine que hoje, terça-feira, recebe ao fim do dia uma tarefa que tem de ser feita até sexta-feira. Se a fizer com calma na quarta-feira, custa-lhe 2 em esforço, se a fizer mais à pressa na quinta-feira custa-lhe 3, e se a fizer com ‘stress’ e em cima do prazo custa-lhe 5. Imagine também que sente o seguinte: tudo o que envolva trabalhar agora em vez de ler o jornal, ver um filme, ou ir à praia, implica um esforço a dobrar. Então, na quarta-feira, entre um custo de 2x2=4, agora ou 3 amanhã, decide que só trabalha na quinta. Mas chega quinta-feira, e você pensa: 2x3=6 agora ou 5 amanhã? Fica para sexta e faz-se à última da hora. Repare que se eu lhe perguntasse hoje quando é que ia fazer o trabalho, me diria na quarta, se lhe perguntasse na quarta diria na quinta, e por fim na quinta acaba por adiar para sexta. Como dizem os espanhóis: “Mañana, mañana…”

Apliquemos agora este modelo ao exercício físico ou à poupança. Ambos envolvem esforço no presente e benefícios no futuro. Se o presente tem sempre um papel especial, a sua reacção vai ser a mesma que teve quanto ao trabalho: procrastinar.

Deixe-me dar-lhe uma nova opção. Hoje à noite, pode telefonar ao seu melhor amigo e combinar passar o dia com ele na quinta-feira. Quando na quarta-feira decide o que fazer só tem a opção de trabalhar nesse momento a custo 2x2=4, ou na sexta-feira a custo 5. Acaba por trabalhar na quarta, exactamente como queria.

Estas teorias justificam todo um novo conjunto de políticas. Por exemplo, na questão das reformas, costumam-se opor duas perspectivas. Por um lado, se o Estado obrigar as pessoas a poupar uma quantia fixa, então impede que cada um possa escolher o que é melhor para si. Por outro lado, se o Estado não fizer nada, talvez as pessoas se deixem levar pelas suas tentações e não poupem nada. Mas, que tal a seguinte sugestão: o Estado oferece (ou permite que o mercado ofereça) o seguinte contrato: todos os meses podem deduzir automaticamente do meu salário uma quantia que eu escolho e que é posta numa conta de poupança. Esta conta é minha, pode ser gerida por mim, pelo Estado, ou por outros, mas se eu levantar dinheiro antes dos 60 anos, pago uma multa. Se você não sofre de tentações, recusa este contrato: para quê comprometer o seu dinheiro desta forma inflexível? Se se deixa tentar, então este produto é óptimo: serve o mesmo papel que o velho mealheiro de barro servia quando era criança.

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